segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Yes, we can!


“Yes We Can”
We Quem, Cara-pálida…


Eu nunca gostei de ver as imagens televisivas do Presidente Barack Obama vomitando: “Yes We Can” (Sim Nós Podemos), aquilo nunca fez muito sentido para mim, muito menos o fato destas palavras serem tão celebradas mundo afora – em especial no mundo subdesenvolvido e explorado.

Agora, as coisas estão fazendo mais sentido; ficaram mais nítidas depois do anúncio do presidente estadunidense sobre a conferência climática de Copenhagen em dezembro, finalmente eu entendi que toda a confusão, estava em um simples fato de “economia de palavras”, uma omissão voluntária para economizar em tempos de crise global; O sorridente Obama, não estava mentindo para ninguém, nada de maldade, só corte de custos mesmo, nada que uma tradução atenta não resolva...

Yes We Can
Tradução 1) – Sim Nós Podemos continuar a destruir o meio ambiente global, podemos despejar quantas toneladas de entulho carbônico na atmosfera nós quisermos, podemos consumir e estimular o consumismo até esgotar os recursos do planeta, podemos destruir tudo, É Tudo Nosso Mesmo.

Yes We Can
Tradução 2) – Sim Nós Podemos continuar financiando o RACISMO, apoiando todos os crimes dos assassinos sionistas do Estado Terrorista de Israel, contra os semitas Palestinos, podemos barrar as resoluções que pedem o fim dos massacres, das humilhações, das construções de assentamentos e todas as outras atrocidades que nossos aliados de Israel estiverem interessados, simplesmente porque podemos, e nos interessa militar e economicamente!

Yes We Can
Tradução 3) – Sim Nós Podemos continuar violando os direitos humanos e assassinando na prisão de Guantánamo, que fica em nosso quintal, um quintal rebelde, mas que com a reativação da 4ª frota naval, nossas novas bases na Colômbia (apoiados por nosso fiel capacho Uribe) e com a subserviência de quase todos os governos a nós americanos, logo estará cumprindo seu papel histórico de lamber nossos coturnos, afinal a América Latina é o NOSSO quintal!

Yes We Can
Tradução 4) – Sim Nós Podemos continuar enviando tropas para o Afeganistão, invadindo, sustentando ou incentivando a invasão do Iraque, do Haiti, da Palestina e de todo e qualquer povo que se colocar em nosso caminho, claro sempre defendendo a liberdade, pois nosso caminho para a exploração deve estar LIVRE!

Yes We Can
Tradução 5) – Sim Nós Podemos fazer TUDO o que quisermos, nós somos AMERICANOS*!

Sid Cerveja - Sidinei Roberto Nobre Júnior – UNIFESP – Guarulhos

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

uma foto arrancada da prateleira


Isolde era uma moça jovem que estudava no Colégio São Vicente em Itapiranga. No final da década de 1960 esta escola era uma referência na região e muitas adolescentes deixavam suas comunidades e famílias para continuarem seus estudos. Algumas destas meninas freqüentavam o internato do São Vicente mantido pelas freiras da Sagrada Família, mas outras trabalhavam como empregadas domésticas em residências da cidade para que pudessem estudar.
Isolde trabalhava como empregada na casa de uma família tradicional de Itapiranga. Pela manhã fazia suas tarefas, limpava a casa, cozinhava, cuidava das crianças, e por esse serviço recebia muito pouco, apenas o direito de residir com a família e de estudar á tarde no colégio São Vicente. Aliás, a única quantia em dinheiro que ela recebia era no final do ano, quando ela voltava para a casa da família no interior.
Sabemos que a disciplina no Colégio São Vicente era algo sagrado. Bem pudera, era um local com muitas meninas adolescentes, que obviamente eram atiçadas pelos garotos da cidade, que também estudavam nesta escola. Toda esta disciplina rigorosa também instigava nas meninas certo espírito de rebeldia, o que muitas vezes gerou sérias complicações e punições por parte dos coordenadores da escola.
Todas as meninas eram obrigadas a usar saias compridas, era exigência moral da época. Mas antes de entrar na escola, as meninas dobravam a barra da saia até acima do joelho e quando era dado o sinal de início das aulas, ela desenrolado encobrindo até parte uma da canela. Na porta de entrada postavam-se duas freiras para fiscalizar quem ocasionalmente não estivesse vestido a rigor. Não estar a rigor significava punição.
Os adolescentes da época cultuavam personagens da música e do cinema que simbolizavam o espírito de rebeldia do período. Um destes símbolos era o casal de músicos Teixeirinha e Mary Terezinha, que formaram uma dupla amorosa e musical durante vinte e dois anos. Eram um símbolo entre a juventude da época. Gravaram muitas músicas e foram companheiros em filmes que encantavam principalmente o público jovem.
Isolde conseguiu de uma colega a foto do casal Teixeirinha e Mary Terezinha, e no final do ano a levou para casa para mostrar a seus irmãos. Colocou a foto na prateleira da cozinha, pintada de azul com aberturas de vidro. Era um gesto inocente, mas condenado pelo seu pai.
Quando o chefe da família se deparou com aquela imagem, imediatamente a tirou de exposição jogando-a no fogo do fogão. As pessoas mais tradicionais da época não simpatizavam com estas tendências modernistas dos jovens. Para os mais velhos as únicas imagens que pudessem estar expostos na casa, eram imagens de santos. O gesto do pai de Terezinha era muito mais do que um simples gesto disciplinar, era uma amostra do conflito de gerações que ficou evidente a partir da década de 1960.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Antes de Eusébio ir ao baile

Esta é a história de um homem, Eusébio, criado na roça no meio do nada. Uma história surpreendente, que parece irreal, mas que aconteceu no passado desta terra chamada Porto Novo. Uma história que parece ter sido única, mas que se confunde com a vivência de muitos homens criados neste rincão.
Eusébio era definitivamente um cara estranho. Não que ele tivesse tido alguma anormalidade física, muito pelo contrário, seu corpo era sadio, forte e rude pelo trabalho pesado e pela alimentação saudável da época. Eusébio era um cara estranho porque era pouco sociável e tímido, preferia ficar em casa, na companhia dos animais, do que sair e se relacionar socialmente. Aliás, os animais da propriedade significavam tanto para Eusébio, que a eles deu até mesmo nomes, e conversava com eles como se fossem íntimos. Até os seus seis anos de idade, antes de freqüentar a escola, Eusébio não teve qualquer contato com a sociedade, vivia entre os animais da propriedade, acreditando muitas vezes ser um deles.
Assim havia o cachorro Xole, companheiro de caça; a junta de bois, Vermelho e Valente, companheiros de trabalho; Campeão, o galo de rinha; e a vara de porcos, cada um com seu nome. Com as vacas e as galinhas Eusébio não tinha um relacionamento direto, porque isso era obrigação das moças da casa.
Em relação aos porcos é preciso destacar que Eusébio cometeu um dos pecados mais terríveis do catolicismo. Pelo fato de ser pouco sociável teve um caso de amor com uma porca, a Princesa. Sim caro leitor, o que chamamos atualmente de bestialidades, fora cometido não poucas vezes na colônia Porto Novo. Porcas, bezerras, novilhas e cadelas, foram muitas vezes objetos de desejo sexual de jovens como Eusébio.
Este caso de amor entre Eusébio e Princesa, a porca, durou até o dia em que foram flagrados pelo pai de Eusébio. A reação foi de horror, como eles ousaram cometer este pecado? É claro que naquele dia Eusébio apanhou muito, e a porca também. Der hat der Eusébio geschwot und die Sau auch. Dan sagt der man: “Du solst noch einmahl schweinerei machen! Jetz hats geschegt.” Uma semana depois a porca Princesa virou salame.
A partir daquele dia Eusébio não era mais responsável por tratar os porcos, função que passou a ser exercida pelo irmão, que já estava de sobreaviso. A surra de cinta desferida pelo pai em Eusébio e na pobre porca Princesa deixou todos assustados.
A propriedade da família de Eusébio era isolada e distante da civilização, no meio do nada, literalmente. Esporadicamente a família recebia alguma visita, fato que deixava as crianças assustadas e tímidas tanto que se escondiam no galpão e no sótão. O filho mais velho já freqüentava os bailes e já participava das atividades comunitárias. Mas Eusébio e seus outros sete irmãos eram pouco sociáveis.
Sentiam-se a vontade quando estavam em meio aos animais da propriedade. Seus corpos cheios de feridas e bicho-de-pés denunciavam a pouca higiene da família. Banhos evidentemente, só ocorriam no riacho ou ao sábado, reduzidos ainda mais em épocas de inverno.
A socialização das crianças acontecia a partir do momento em que freqüentavam a escola. Aliás, Eusébio e seus irmãos eram péssimos alunos. Sempre sujos e infestados de piolhos, os cadernos igualmente mal cuidados, demonstravam que aquela família era definitivamente anti-sociável. Como eles havia várias outras crianças, que cresceram reprimidos pela timidez, suas histórias são mantidas à surdina, varridos para baixo do tapete, não são um modelo de alemão idealizado para Porto Novo, mas são parte de sua história.
Geralmente esta situação de isolamento social ia se dissolvendo com o passar dos tempos, conforme o contato social evoluía. No entanto, muitos homens e mulheres jamais tiveram uma paixão, um relacionamento, um casamento, porque justamente cresceram com medo. No caso de nosso amigo Eusébio, ir ao baile poderia ter significado um avanço, mas foi um desastre que veremos na próxima semana.
Os fatos presentes nesta crônica são reais, apesar de os nomes dos personagens serem inventados, inclusive o da porca.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Quando Maria foi ao baile...

Maria estava com seus dezesseis anos completados, já tinha personalidade para acompanhar seus irmãos aos bailes. Depois de longos anos servindo como anjo da guarda, era chegada a hora de ultrapassar as barreiras da vida. A sua experiência como anjo da guarda rendeu uma série de curiosidades, não que ela tivesse visto algo de extraordinário no namoro de sua irmã com seu namorado, afinal de contas, grande parte do tempo ficou distante, comprada por um doce. Mas Maria estava curiosa porque ouvia de sua irmã fatos que transcorriam durante o namoro. Como era possível duas pessoas fazer tais coisas? Imaginava ela.
No dia do baile teve de ouvir sérias recomendações de sua mãe, sobre o que poderia ou não ser feito, e o que deixava ela realmente surpresa, é o fato de que sua irmã contava justamente o contrário. Neste momento Maria teve uma lição importante na sua vida. Existiam dois mundos em Porto Novo: aquele que as pessoas idealizavam existir, baseado nos valores morais passados de geração em geração, e aquele mundo paralelo da vida, muitas vezes escondido, que acontecia no escuro, nos “porões da alma”, que era condenado pela sociedade, mas também praticado por ela. Esta situação deixava Maria realmente curiosa.
No dia do baile havia um entusiasmo em todos, afinal de contas era a oportunidade de sair de casa. Maria foi ao baile com seus irmãos e alguns vizinhos. Já não estava mais incumbida de ser anjo da guarda, agora estava na condição de independente. Chegando ao salão, a movimentação era grande, as pessoas realmente freqüentavam os bailes na década de 1950. A animação da banda era evidente, mas o volume era muito baixo, o que muitas vezes dificultava aos casais de se manterem no ritmo. Algumas vezes a música já tinha acabado e alguns casais continuavam a dançar.
As mulheres sempre tinham que estar vestidas prudentemente, nenhuma roupa que demonstrasse excessivamente o corpo. Naquele baile a comissão de ordem (Ordnungskommission) teve que entrar em ação para expulsar uma jovem que havia usado trajes que feriam os padrões da época. As garotas ousavam, as vezes, muito mais do que os homens.
A certa altura do baile fato inusitado assustou a estreante Maria. Um jovem rapaz convidou uma de suas irmãs para uma dança, e ela prontamente negou. Tal atitude deu ao jovem a autoridade para desferir-lhe um violento tapa. Na época os homens tinham o direito de reprimir as moças que recusavam o convite a uma dança, direito que lhes era garantido pelo fato de que elas não precisavam pagar ingresso no baile. Maria achou aquilo um cúmulo, mas suas irmãs logo a instruíram de que era o costume, e costumes não se contesta.
As mulheres dificilmente consumiam cerveja. Aliás, poucos jovens tinham dinheiro para gastar com cerveja. Durante o baile se consumia cuca, salame, e uma cerveja que se fazia questão que durasse o maior tempo possível, mesmo que fosse quente.
Até certo da altura do baile era permitido que as moças pudessem dançar entre si, mas a certo altura era dado o sinal de que isso não era mais permitido, era a hora da paquera. Em poucos momentos era permitido que as mulheres tirassem os homens para dançar (Damentur), fato que era encarado como vulgar, mas que acontecia. Geralmente as mulheres sem namorado se posicionavam num canto reservado (Mädesck). Naquela noite Maria foi convidada duas vezes para dançar, porque ainda era muito nova, ainda não estava na idade de casar. Voltou para casa com mais dúvidas do que respostas. Sabia que para conhecer a vida fora dos padrões morais, era necessário ousar e ter certa dose de coragem.

sábado, 20 de junho de 2009

Histórias do velho oeste: das arbeiten

A região possui histórias impressionantes sobre a dedicação deste povo ao trabalho. Entlige han sich kaput geschaft, aber sind die woh auch wenich aus das Arbeite sich geqüelt han. Temos pessoas que entregaram sua vida ao trabalho e ao sacrifício brutal de trabalhar com a finalidade de juntar um capital familiar ou deixar uma herança aos seus filhos. Inclusive algumas pessoas até se sentiam culpadas quando passavam o dia sem ao menos ter trabalhado ou produzido algo. O ócio não é um valor que se aplica a rigor na cultura alemã.
Por aqui podemos perceber que a palavra trabalho tem um vínculo muito forte com a origem do termo, que é derivado do latim, e que na Antiguidade denominava um instrumento de tortura imposto sobre os únicos que realmente deviam sofrer trabalhando.
Em São João do Oeste tivemos um caso de dedicação ao trabalho, o que pudemos constatar quando ele fazia seu trabalho de arador. Seus gritos e lamentações com a junta de bois eram tão intensos e explosivos, que se assemelhavam a um drama. Era uma verdadeira angústia escutar este homem a guiar o arado. Era algo impressionante, porque quando ele fazia seu trabalho toda a comunidade escutava seu berreiro. “Vaaamo seus lerdos, eu não tenho o dia todo!”. Pelos gritos do homem, para quem estava desinformado, parecia que ele arava com três bois: “Mineiro, Bahiano, Aiaiaiaiai!”
Nos primeiros anos de colonização de Porto Novo, o trabalho era essencialmente braçal. Era necessário derrubar a mata, queimar os troncos e arar a terra, num trabalho braçal sofrido. A família numerosa dedicava-se inteira a atividade agrícola, catando as pedras para que a terra apresentasse mínimas condições de plantio. Aquela situação era realmente desoladora. Crianças cheias de feridas de picadas de insetos, unhas sujas de terra, pés com uma crosta do frio do inverno. Realmente não era tarefa fácil distinguir os animais dos seres humanos na lida na roça.
Mas por aqui nem todos eram assim tão entusiasmados pelo trabalho. Doh ware auch die woh gern in die Schtat gefah sind. Na cidade passavam a tarde jogando baralho ou incomodando o prefeito com lamentações, enquanto que a mulher e os filhos cuidavam da propriedade. Estes realmente acreditavam que o trabalho era um castigo de Deus, e não estavam nem um pouco interessados em suprir sua dívida divina. E estes transeuntes não fazem parte somente de nossa história, alguns deles ainda andam por aí.
O trabalho se tornava ainda mais sacrificante pelas condições físicas de nossas terras e matas. Em alguns locais a roça era tão inclinada que o arador, para fazer seu trabalho de arar a terra devia usar uma junta um tanto estranha: para equilibrar a declividade do terreno, de um lado cangava um boi, e de outro, um porco. E aquelas verdadeiras jornadas pela sobrevivência que eram realizadas a carroça, que atravessava terrenos montanhosos e acidentados, munidos simplesmente com um sistema de freio extremamente inseguro. Os bois, coitados, chegavam em casa babando de sofrimento, e ainda por cima eram proibidos de comer ou consumir água por uma espécie De cesta que prendia sua boca – Maulkhorap.
Quando os bois se cansavam de seu trabalho extenuante, e decidiam por falta de forças deixar de puxar a carroça, o animal de duas patas os castigava cruelmente e sem perdão, com um chicote violento, que quando chicoteava, assobiava no atrito com o ar.
No passado se trabalhava muito e se produzia relativamente pouco. Muitas pessoas morreram de tanto trabalhar, assolados por doenças físicas de tanto castigarem o seu corpo. Homens e mulheres, adultos e crianças, temos um passado marcado pelo trabalho pesado, e isso está impregnado em nossa cultura, por isso se diz que o alemão tem um corpo rude e duro, moldado pela geração do trabalho.